quarta-feira, 29 de março de 2017

Não há vantagem em ser invisível

No último dia 15 participei de uma manifestação, quando chegamos ao local determinado, acampei na grama da ALMG, e lá fiquei pensando na invisibilidade social.


Eu nasci invisível, filha de operário da FIAT com uma dona de casa, ambos vindos do interior de MG, moramos de aluguel até eu completar 10 anos e quando tivemos a tão sonhada casa própria (que até hoje não está pronta), meus pais se separaram.
Que expectativa de futuro teríamos se minha mãe mal sabia cuidar da casa e dos filhos?
Quando eu cresci um pouco, fui tomar conta do filho do vizinho e fazer freela num clube em Nova Lima, aos finais de semana, ser atendente do bar e levar cantada de velhos babões. 
Quando terminei o técnico em contabilidade, ganhava um salário mínimo e a faculdade custava uns três, Federal era um sonho distante, pra quem tinha feito um segundo grau sem as matérias principais, sem grana pra fazer cursinho, já que a maior parte do meu salário mínimo ia pra casa. Desde muito nova, tinha muitas responsabilidades, mas não estou reclamando, longe de mim fazer isso. Só quero mesmo mostrar que não havia muita perspectiva pra mim, além das lojas de shoppings e supermercados. Eu me tornaria mão de obra aos 18 anos. Como todo filho de pobre.
Quando eu (finalmente) consegui passar num concurso e ter grana pra pagar a faculdade, já tinha uns 26 anos.
Me formei com quase 30. 
Na faculdade comecei a me sentir menos invisível. Lembro da minha filha pequena tendo que ficar com as amigas, com a vizinha pra eu estudar, enquanto meu marido trabalhava no terceiro turno da empresa de ônibus.
Tempos difíceis, mas nem por isso ruins. 
Chegávamos da faculdade, sentávamos na grama do condomínio que apelidamos de favela vertical e íamos conversar sobre como foi nosso dia e fumar um cigarro.

Neste dia da manifestação pensei: "Hoje, a licenciatura em Letras me deu voz, sou professora, estou à frente de um grupo. Mas e quantas pessoas continuam invisíveis nesse país tão grande?"
Confesso que meus olhos marejaram, como agora enquanto escrevo este post.
Deus sabe, não há vantagem em ser invisível.
Ser invisível dói. 
Aí, meus amigos, no mesmo dia, eis que uma pessoa que conheço tão pouco, mas é dessas afinidades cósmicas, uma atriz, Clarice Carvalho, mãe, avó, produtora, trabalhadora... e tantas outras características que só as mulheres sabem que carregam, leu pra gente um texto, que compartilho com vocês:

"E se todas se chamassem Carmem ?
Este é o título do espetáculo concebido pelas inquietações e o encontro de três atores que marca o nascimento da Breve Companhia de Teatro, um coletivo que tem em seu DNA a luta pelo empoderamento das mulheres, dos negros e dos excluídos.
A Bloco 1 Produções Teatrais apresenta e convida a todos a conhecer mais de perto as agruras e a dor de ser invisível :
“Eu me chamo Carmem. Eu vendo cigarros! ”.
“Dona Carmem era a única que me chamava de filha. ”.
Uma outra Carmem morava numa árvore e brincava de esconde esconde e amarelinha ... até ter sua infância roubada!
Teve uma que foi convidada a ser parte da família. Um dia feliz !
Foi violentada pelo marido da mulher que a escravizava!
“Você acha bom ter filho? ” Bom é achar bom! ”.
Essa Carmem entoa canções de ninar para seu filho. Todas falam de medo.
Algumas Carmens não falam ...e entregam pra adoção os filhos da fome !
Uma nasceu num corpo que não era seu.
Se sentia uma aberração negra no meio dos iguais.
Iguais a quem ?
Nascerão outras Carmens, dessas que não irão à Universidade e que talvez não sobrevivam a violência e ao preconceito.
Qual Carmem é você?"


Nenhum texto alternativo automático disponível.

Gostaria que pensassem. 
E se puderem, assistam à peça da Clarice Carvalho.

Nem todos os invisíveis ganham voz, como eu ganhei.
Nem todos os invisíveis têm as mesmas oportunidades que eu tive. 
E não é falta de luta, de correr atrás que estou falando. 
Os invisíveis correm atrás mais do que qualquer ser humano, mas nós, que estamos acostumados a ver o que os olhos mostram, temos dificuldade em enxergar. 

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