sábado, 23 de janeiro de 2016

Do romantismo

Como todos os virginianos, sou aparentemente uma pessoa fria. A reputação dos nativos sob o signo de Virgem é de que não nos importamos com a falta de afeto. Que não precisamos dele, que somos narcisistas, ou seja, verdadeiras paredes de pedra.

Eu cresci em um lar com pai ausente desde sempre, e minha mãe nunca foi das mais amorosas, enfim, é difícil passar adiante o que não se aprende. Mas juro que tento compensar isso com meus filhos.
Eu tinha uma avó, e, graças a ela, aprendi a ser um pouco mais coração mole. Posteriormente, uma professora (a gente sempre tem aquela) que foi um dos meus primeiros modelos de como semear o amor.

Com esse breve resumo de "não posso dar o que eu não tive", o romantismo era, para mim, coisa de filme, de novela, porque nunca vi meu pai, enquanto ele ainda convivia com minha mãe, levar uma flor colhida no jardim do vizinho, chegar em casa com um presente inesperado só porque lembrou que ela gostava, nem nada do gênero. Uma surpresa boba, um passeio sem os filhos, coisas simples que qualquer um pode fazer. Também nunca vi minha mãe fazer o prato preferido do meu pai, acho que ela nem sabe se ele tinha um... Enfim... não os condeno por isso, imagino que se deve à criação que receberam, e, logo, não tinham como passar adiante o que não experienciaram.

Aí eu cresci. Cresci pensando que romantismo não era coisa praticável na correria do nosso dia-a-dia. Via-o como uma utopia.

Não tive namoros longos antes do meu casamento. Mas os três que tive, incluindo o marido, foram legais à sua maneira de demonstrar que cabia um pouco de romantismo dentro do corre-corre, apesar da pouca grana da adolescência e de  tantas outras restrições daquela época. Uma serenata, um K7 com suas músicas prediletas gravadas, um bombom com um coração torto e uma mensagem fofinha...


Não falo aqui do romantismo de helicópteros fazendo chuvas de pétalas de flores, mas de gestos cotidianos, simples, que demonstram amor, afeto e que são muito mais românticos do que escrever eu te amo e mandar projetar na lua, por exemplo.

Falo de chegar em casa cansado, após um dia cheio e exaustivo de trabalho, e ser recebido com o cheiro da nossa comida preferida, ou uma mensagem no meio do expediente de "estou com saudades", "sinto sua falta", dentre tantas outras. Olhar uma coisa e pensar em você, te presentear sem motivo específico só pra te deixar feliz, mesmo que o presente seja um simples bombom. Sentar-se ao seu lado e assistir aquele filme que não gosta, só pelo prazer da sua companhia... Infinitas possibilidades, dentro do nosso pequeno universo.

Eu não gosto de ganhar flores, nem ovos de páscoa e acho abominável o Dia dos namorados. Para mim flor bonita é no pé, viçosa e feliz. Talvez por isso passe a imagem de não ser romântica. 

O fato de não gostar de flores mortas, nem de datas comerciais, não significa que não possa ganhar uma flor, um pôr do sol, uma paisagem de encher os olhos, com tanta tecnologia que nos cerca, (hoje em dia existe celular que faz foto que se movimenta, que nem nos filmes do Harry Potter) ou uma barra de chocolate na minha TPM pra fazer eu me sentir mais tranquila... Respeitar minha TPM já é, para mim, um gesto de romantismo.


A falta de romantismo há quando nos falta criatividade, vontade, quando deixamos que o cansaço, a correria, a falta de perspectiva nos leve à sua não prática. Quando priorizamos outras coisas e deixamos de lado o relacionamento por falta de tempo, devido aos filhos ou ao trabalho que nos consome. Quando não aproveitamos aquele momento do filme que o outro gosta para assistirmos junto no sofá. Quando não nos interessamos por sua vida de um modo geral. Assim, se mata o romantismo e se mata também o amor.















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