terça-feira, 30 de junho de 2015

Quando nasce uma mulher (?)

Definitivamente não é fácil nascer mulher...
Na minha geração e nas passadas, éramos presas por correntes invisíveis.
Pelo menos não era fácil na época da minha avó, da minha mãe e na minha.
Nascíamos fadadas a aprender a cuidar dos outros, mas nunca ensinadas a nos cuidar.

Digo cuidar de nossos sonhos, de nossas vontades, de nossas fantasias e desejos.
Tínhamos que cuidar de como deveríamos nos sentar, principalmente usando saias. 
Não podíamos ingressar no universo dos meninos: das bolas de gude, das pipas, dos carros de rolimã...
Se você ficar no meio dos garotos, vai ficar mal vista. - dizia meu pai.
Quando por ventura nos aventurávamos a "desobedecer" éramos chamadas de rebeldes, ovelhas negras, revoltadas... e uma infinidade de outros rótulos que insistiam em nos dar, porque simplesmente queríamos fazer interseção entre os dois mundos.
Na época da minha mãe e da minha avó ainda era pior. As mulheres eram obrigadas a aprender a bordar, cerzir, cozinhar, imagine só? (Nada contra esse tipo de aprendizagem, que fique claro. Até gosto, faço e acho relaxante.)
Casavam-se cedo. Antes dos 15 as avós e antes dos 20 as mães.
Não sabiam nem o que era estar com um homem. Não sabiam nem se gostavam de homens.
Eu, apesar de ter me casado bem jovem, consegui passar pela transição disso. Aprendi a jogar bolinha de gude, soltar pipa, brincar de carrinho. Tive tempo de me decidir se gostava de homens, tive alguns "ficantes", alguns pouquíssimos namorados (acho que três) e me casei com um deles. E penso que o fiz cedo demais. Enfim...
O conceito de ser mulher está bem mudado. Graças a Deus são outros tempos. Tempos em que as mães (como eu) criam suas filhas para serem o que quiserem. Para irem onde quiserem e como quiserem, desde que se sintam bem.
São tempos melhores. Mais felizes. 
Tempos em que nos sentimos bem em sermos nós mesmas. Tempos em que nos achamos tão belas que queremos mostrar ao mundo o quanto o somos. Tempos em que cortamos o cordão umbilical da culpa. A culpa de se nascer mulher.
Em tempos remotos era maldição ter filha mulher. Em alguns lugares do mundo ainda é.
Hoje podemos escolher entre ficarmos em nossa companhia, não nos sentimos obrigadas a ter um par, a estar com alguém, a planejar uma vida com outra pessoa.
Hoje é normal viver sozinha, não querer ter filhos, não ceder à pressão que a sociedade nos impõe.
"Você precisa se casar." "Você precisa ser mãe." "Você precisa ser magra." " Você não pode se separar do seu marido." " Você não consegue se virar sem um homem do lado."
Tantas mentiras nos foram ditas...
Divulgação
Até o belo dia em que despertamos e vemos o quanto somos especias. Lindas, inteligentes, interessantes, divertidas, sensuais... e LIVRES.
Livres para irmos e virmos. Livres para sermos e para não sermos. Livres para experimentar. Livres para não nos preocuparmos com o que os outros pensam.
Livres para não nos tornarmos escravas dos padrões estéticos e da moda. 
Livres para não precisarmos melhorar a aparência para não perdermos nosso homem (ou mulher).
Livres para andarmos de chinelo e descabeladas pelo nosso bairro ou em Paris.
Livres para comermos lasanha sem culpa, tomar cerveja, jogar sinuca...
Livres do tabu do sexo. 
Livres para sermos. 
Simplesmente. 
Não pense que todas nós alcançamos esse patamar.
Não ainda.
É preciso uma força descomunal para remar contra a maré  das convenções e um desejo ardente em se desapegar do que nos puxa para baixo.
Quando alcançamos esse nível de evolução, aí sim nasce verdadeiramente uma mulher.

Dedico a todas as mulheres que chegaram a esse nível e a todas que estão lutando para alcançá-lo.




Um comentário:

Ana Paula disse...

Muito bom Chris. Realmente, ser livre é o mais importante. Não se pode ser feliz de outro jeito. Ou a gente é o que é ou morremos ainda vivas...