terça-feira, 3 de junho de 2014

Uma cebola ou o olho do furacão


"As pessoas que não sabem viver sozinhas estão o tempo todo mendigando aprovação das outras.
É preciso aprender a viver só, aprender a fazer silêncio, para poder conviver com o outro, porque dentro de cada um de nós mora uma grande solidão. Há um lugar dentro da gente que ninguém vai, somente nós. E nem nós mesmos sabemos como é esse lugar. Então temos que aprender a respeitar a solidão do outro e a nossa própria solidão." (Rubem Alves)


Imagine que você seja feito em camadas como uma cebola.
Agora imagine você retirando cada uma de suas camadas para se descobrir ou ser descoberto.


Quando nos mostramos para o outro somos uma linda cebola (eu achei cebola o melhor recurso para pensar em camadas) , de casca brilhante ou com alguns poucos estragos. Uma camada protetora pouco ou muito usada.
Depois que você tira a casca da cebola, parte da sua proteção se foi junto, você se revela um pouco mais, deixa que o outro veja mais de você e lentamente, camada por camada a cebola vai se desmanchando.
Várias camadas depois, estamos na menor e não menos importante camada da cebola, a última, aquela que nem ela mesma sabe que possui. Quase o subconsciente da cebola, ou algo que ela guardou, tão bem guardado debaixo de suas camadas que gostaria de esquecer e não esqueceu.
É onde a cebola é sensível, frágil, sozinha, pequena, desprezível...
É onde a cebola não esperava que ninguém chegasse. Nem ela mesma.




Pensando de forma reversa, imagine o olho do furacão.
A menor parte. Um pequeno círculo de vento, onde tudo começa.
Minúsculo. Quase nada. Denso. 




Se abrindo e se movimentando. E conforme vai ganhando espaço, conforme sua fúria vai crescendo, consume tudo o que encontra pelo caminho.

Destruindo, machucando, arrastando tudo.



Agora, imagine você, pessoa humana:
Enquanto cebola, você se mostra de dentro pra fora, camada por camada, para as pessoas conforme cresce o grau de intimidade entre você e o outro.
Existem pessoas, talvez todas elas, que nunca chegarão na camada menor e mais profunda de você.
Talvez nem você mesmo saiba onde e como funciona este lugar.
Mas chega um momento onde o confronto é inevitável.
O momento onde você se depara com a insuportável companhia de si mesmo.
A tal da solidão.

E partindo de dentro pra fora, você sozinho, não consegue suportar essa companhia.
E começa a crescer.
De dentro pra fora. Como o furacão.
No começo um tímido círculo de vento, que começa a ganhar força e crescer.
Crescer de maneira desordenada. Sem ajuda, sem orientação.
Ganha uma imensa proporção que se torna avassaladora e negativa.
Que destrói a tudo que está no caminho e se consome em si mesmo, até não sobrar mais nada.

O que eu quero que tiremos disso tudo que aqui está escrito é: podemos ser cebolas ou podemos ser furacões.

O que vai nos diferenciar uns dos outros é a nossa forma de agir de fora pra dentro e de dentro pra fora, de onde ocorrem as grandes mudanças.
Mas para essas mudanças serem positivas, repito, elas precisam ser orientadas.


Um comentário:

Elaine disse...

Essa questão de crescer de maneira desordenada e avassaladora é que me preocupa. Porque às vezes, quando se percebe muita bobagem já foi feita. Vivendo e aprendendo.